Pintor Afonso Costa: pintar (n)uma nova vida

Pintor Afonso Costa: pintar (n)uma nova vida

O pintor arouquense Afonso Costa tem, desde 19 de agosto, uma exposição patente no Museu Vivo da Fogaça, em Santa Maria da Feira, com quadros, pintados antes de ter sofrido um AVC (acidente vascular cerebral), em 2018.

O artista contemporâneo recorre, nas suas obras, a vários materiais além de telas e tintas, como tecidos ou missangas, fazendo o reaproveitamento daquilo que muitos consideram lixo, usando técnicas de sobreposições e colagens, por forma a criar texturas. De todos os trabalhos que já realizou, há ainda alguns mais complexos com junção de telas e outros que são desmontáveis, salientando-se a riqueza das temáticas abordadas que vão desde os sorrisos, à dança ou à beleza feminina.

A pintura surgiu por gosto e antes de qualquer formação. Começou a pintar, como todos os jovens, na disciplina de educação visual, na escola. Depois, foi autodidata. A sua atividade profissional desenvolveu-se noutros setores, sendo que, posteriormente, frequentou um curso de pintura, durante um ano, no Atelier Luísa Pedrosa. A partir daí, o reconhecimento não parou.

Afonso Costa expõe regularmente desde 1990, tendo começado com a participação na Coletividade dos Artistas Arouquenses e nos Jogos Florais, em que conquistou o 2º lugar. Seguiram-se mais exposições em Arouca, de onde é natural, mas também em Castelo Branco, Coimbra, Lisboa, São João da Madeira, Guimarães, Porto, Vila Nova de Gaia, Régua, Ovar, Caldas da Rainha, Leiria, Fundão, entre outras localidades.

Sócio Produtor da Cooperativa Artistas de Gaia, frequentador do Atelier Galeria José da Silva e membro do “Grupo Silvarte”, o artista conta no seu currículo com exposições coletivas e individuais, para as quais procurava ser inovador e “escolhia os quadros que melhor encaixassem nas temáticas”, quando isso se aplicava. Nalgumas delas chegou mesmo a pintar ao vivo, mostrando a beleza do processo criativo. Sobre a complexidade desse processo conta que há quadros que pintou num dia, outros numa semana e alguns ainda que foi fazendo ao mesmo tempo, não conseguindo precisar o tempo médio necessário para concluir as suas obras.

Realizou visitas de estudo regulares a diversas galerias de arte e à ARCO, em Madrid. Parte da sua vida foi sendo dedicada à criação artística, tendo feito muitos trabalhos por encomenda, mas não escondendo que prefere “deixar a imaginação trabalhar e pintar o que vem à cabeça”. Das obras feitas por encomenda, lamenta “algumas que saíram furadas, porque as pessoas levaram quadros e nunca pagaram”, dificultando um já duro caminho para quem está neste setor artístico. Quando pedem para baixar o preço — o que acontece quase sempre — Afonso cede. “Já estou a contar com isso”, admite, com um sorriso no rosto.

Ainda que tenha vendido quadros em muitas exposições, mesmo quando outros pintores não conseguiam vender nada, Afonso Costa também passou por exposições em que quase não vendeu nenhuma obra, mas nunca ficou desmotivado, pois sabe que “não dá para viver da pintura” e o que move “é mesmo só a paixão pela arte”.

Ao lado do seu trabalho como pintor, esteve a gerência de uma loja de roupa, em Arouca, a gerência partilhada de uma discoteca no mesmo concelho, as aulas gratuitas de pintura que, durante 7 anos, deu na Academia Sénior de Arouca, e as idas semanais ao Atelier que integrava, reflexo de uma vida proativa, que não fazia prever uma paragem abrupta.

Em março de 2018, Afonso Costa foi vítima de um AVC. Nesse momento, o pintor estava a preparar-se para uma exposição, em Leiria, onde expunha regularmente. Era ele quem levava os quadros e os cavaletes, e fazia a montagem das exposições. “Quando tive o AVC, eu ia para Leiria e já tinha tudo pronto na mala do carro”, conta à Agência de Informação Norte.

Cada quadro tem uma história para contar e Afonso fez questão de nos contar muitas delas durante esta entrevista, deixando bem clara a sua paixão e dedicação à pintura, um dos grandes alicerces do seu complexo processo de recuperação. A arte deixa-o de sorriso no rosto, mas ao mesmo tempo fá-lo desviar o olhar sempre que isso o relembra de algumas das sequelas que o AVC lhe deixou.

O acidente afetou-lhe o lado direito do corpo. A mão direita, com a qual estava habituado a pintar, deixou de conseguir segurar no pincel. Deixou de ter vontade de pintar, de frequentar o Atelier e, inicialmente, também não teve vontade de continuar a expor, apesar de ter “mais de 50 quadros guardados em casa”.

Foi preciso tempo para Afonso Costa, agora com 61 Anos, decidir continuar a querer mostrar os seus trabalhos, bem como para voltar a pintar, agora com a mão esquerda. A motivação encontra-a, por vezes, nos amigos e família quando pedem insistentemente que continue a pintar.

“Quando estava internado, um senhor de Barcelos foi visitar-me ao hospital e comprou o último quadro que eu tinha feito. Eu já lhe tinha feito um antes e ele disse-me então para lhe vender o último que eu tinha feito, antes do AVC”, recorda Afonso Costa.

Apesar de já ter voltado a pintar, refere que só pintou um quadro e não gostou, “não ficou bem”, pois como se considera muito minucioso agora tem dificuldade em aplicar as mesmas técnicas com a mão esquerda “que não está treinada”. Afonso Costa considera que “há pessoas que conseguem mais ou menos pintar com a esquerda”, mas para ele “escrever, por exemplo, o nome já é muito difícil”. Passa dois dias por semana a aprender a escrever o nome e algumas frases, mas gosta mais de fazer ginástica. Todos os dias durante uma hora. “Mesmo quando os colegas de fisioterapia vão embora, eu fico sempre mais tempo para aproveitar bem”, explica.

Além da ginástica e da pintura, o pintor tem uma longa admiração por budas, contando com uma coleção superior a 500. “Ainda ontem recebi um de França de 60€”, diz Afonso Costa aquando a entrevista.

Expor em Arouca gera algum receio no artista da terra. “Lá, as pessoas já viram quase todos os quadros”, não fechando por completo a porta a essa possibilidade. Aproveitando para falar das exposições no concelho, recorda que “em Arouca fazia sempre exposições bonitas”. Um brio que lhe valeu ter vendido muitos quadros, especialmente na Feira das Colheitas, a maior festa do concelho e durante a qual expôs frequentemente desde a década de 90. Na sua vila, também expôs na biblioteca municipal, em cafés e restaurantes, bem como noutros estabelecimentos.

Em breve, Afonso Costa terá outra exposição, no Porto, que, com sorte, trará a motivação que falta para expor em Arouca e continuar a pintar, até porque um refúgio como a arte, mesmo perante adversidades, não se perde, adapta-se — como está a fazer este pintor.

Texto: Cátia Cardoso com Cátia Camisão

Fotos: Cátia Cardoso

@Agenciadeinformaçãonorte

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